o tempo
Eu não vejo o tempo como uma linha reta, nem ascendente nem descendente. O tempo não deve ser uma parábola, não tem um pico, um auge, e então decadência. Minha linha do tempo é espiralada, multidimensional. É como se fossem ciclos, mas não os mesmos. Eu já estive aqui antes, eu já senti essas coisas antes. Não tudo, claro. Mas são trinta anos de idade. Quantas coisas podem ser novas a essa altura? Eu só construo coisas que possam ser destruídas. Que sejam capazes de se adaptar à destruição. Porque viver em ciclos é se acostumar com o nascimento, o crescimento e a morte, ininterruptamente, de tudo.
Não sei fazer retrospectivas, me importo e não ligo para o passado quase que com a mesma intensidade. Do tempo que passa só espero duas coisas: aprender a ser uma pessoa melhor e não me entregar ao cinismo. É quase uma coisa só. Quando me perguntam o que eu diria para a Bárbara do passado, para a Bárbara de 10 ou 15 anos atrás, não entendo a pergunta. Não posso ensinar nada a quem eu fui. Mas busco frequentemente quem eu era pra entender quem quero ser. São elas que me ensinam. Em honra a quem fui, vou mudando quem sou. Só posso destruir se souber como construir de novo.
os espaços
A sutil esperança do fim da cidade, da imagem avassaladora de árvores crescendo em topos de prédios e trepadeiras escorregando pelas estruturas de concreto armado. Apesar disso, tenho uma relação muito forte com essa cidade, aniversariamos perto uma da outra e não sei que outro lugar poderia ser tão meu quanto suas ruas, ladeiras, estações de metrô. Foi na aridez dos invernos secos e na abundância dos verões chuvosos de São Paulo que me criei. Quão diferente de quem sou eu poderia ser em outro lugar?
eu entendo esse medo da solidão ou do abandono. esse medo de que ninguém nunca mais vai voltar, sem saber se sou ou não responsável pelo desaparecimento da pessoa. como se estivesse abandonada à própria sorte, como um ser humano que não vê nada além de nuvens e corpos celestes no firmamento, ou estar só, mesmo que no meio de tanta gente, sem se enxergar ser especial. no entanto, (e isso não posso explicar para ela) foi de tanto estar sozinha que aprendi a desviar do medo e, às vezes, temo que um dia me apaixone pela minha solidão.