Parar para fazer uma lista com os filmes que mais gostei de ver em 2018. Passar horas, dias, na verdade, pensando naqueles que me marcaram mesmo, que anos depois vou querer usar como exemplo, dizer “tem um filme que fala bem disso”. E, com a lista pronta, pensar o que cada um deles fala para nós do nosso mundo e sobre mim e meu mundo.
Cabaret (Dir: Bob Fosse, EUA, 1972) e Noites de Cabíria (Dir: Federico Fellini, Itália, 1957) são os clássicos da lista, mas não tem quase nada em comum. Cabaret foi amor à primeira vista quando assisti, e não tenho vergonha nenhuma de dizer que, amante de musicais que sou, meti um bocado das canções do filme na minha playlist para andar de bicicleta. A ascensão do nazismo na Alemanha contrastada pela vida de Sally Bowles, papel interpretado por Liza Minelli, e vivenciada dentro de um cabaré me fez pensar em como incomodam os corpos ingovernáveis. Os comentários e preâmbulos do bizarro mestre de cerimônias interpretado por John Grey reforçam no filme as tensões com as quais todos que estão fora da ordem precisam lidar. Noites de Cabíria tem uma protagonista tão carismática quanto Sally, com um percurso igualmente conturbado, mas com um olhar muito mais ingênuo perante a vida. O filme também reafirmou na minha vida o fato de eu ainda não ter visto um filme do Fellini de que não tenha gostado. Melhor assim.
Atores e não-atores contracenando provavelmente é a característica comum dos filmes Arábia (Dir: Affonso Uchoa & João Dumans, Brasil, 2017) e Era o Hotel Cambridge (Dir: Eliane Caffé, Brasil, 2016) mais evidente. Enquanto um percorre os espaços de uma ocupação no centro da cidade de São Paulo, em que brasileiros e refugiados convivem ao mesmo tempo em que constróem a urgente luta por moradia (e, portanto, pelo direito à cidade), Arábia percorre espaços interioranos de Minas Gerais e São Paulo para contar a história de Cristiano e suas andanças como trabalhador da roça e da indústria. Os dois filmes são ficcionais, embora em Era o Hotel Cambridge a fronteira que o separa do documentário seja muito sutil.
Se eu pudesse votar na Academia do Oscar, Visages, Villages (Dir: Agnès Varda & JR, França, 2017) e Projeto Flórida (Dir: Sean Baker, EUA, 2017) seriam talvez os votos mais fáceis que eu teria dado na vida. Ao mostrar um mundo em que muitas vezes é difícil de habitar – e quantas vezes a gente passou por esse pensamento em 2018? – os dois filmes conferem uma dignidade a seus personagens através da imaginação. Se há coisas insuportáveis pelas quais as pessoas estão sujeitas a passar em um mundo de exploração e especulação, a leveza mora em criar novas imagens desse mundo, seja para transformá-lo, seja para suportá-lo. A forma como Agnés Varda conta histórias me encanta e Sean Baker já tinha me ganhado no seu longa-metragem gravado com celular chamado Tangerine.




\”como incomodam os corpos ingovernáveis\”que frase forte, né? vou ficar pensando nela muito tempo ainda. ela resume tanta coisa!dos filmes que você viu, só vi o infiltrado na klan e gostei muito (só acho que não precisava daquele final com as cenas recentes, porque o filme todo mostrou por si só o quanto o assunto é atual). em 2018, não vi mts filmes, porque viciei em séries e isso é um problema quando se tem pouco tempo disponível na semana haha bons filmes pra gente nesse ano novo 🙂
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